domingo, 3 de novembro de 2013

RESENHA: A Nascente


A Nascente é um romance sobre um herói - e sobre aqueles que o  invejam e tentam destruí-lo.

Nome Original.

Eu já falei sobre Ayn Rand na resenha que fiz sobre o meu livro preferido, A Revolta de Atlas. Agora vou falar sobre outro livro dela que é ainda mais antigo, A Nascente é de 1943!

De acordo com o Ayn Rand Institute esse livro vendeu até hoje 6.5 milhões de cópias.

Já falei que eu sou um leitor casual (por falta de tempo e por muita preguiça), mas nesse tomo literário eu me superei. Levei mais de um ano ano, cheguei a ler o livro em dois continentes diferentes xD


A Nascente conta a história do personagem Howard Roark contra o mundo.

Tudo começa na sua época na faculdade de arquitetura, onde os conflitos entre ele e o seus professores começam a se acentuar até culminar no ponto da sua expulsão da universidade. Howard nunca aceitou o que as suas aulas tentavam lhe ensinar sobre todos os estilos arquitetônicos já terem sido inventados, e que o máximo que os novos profissionais poderiam fazer é combiná-los entre si. Para Howard, ou a arquitetura é algo prático que satisfaça necessidades reais, ou então que se exploda todos os adornos e detalhes cuja única função é serem 'belos'.

Ironicamente o seu colega de casa acaba se formando em arquitetura com as notas mais altas e recomendações dos professores, o que lhe garante uma oportunidade de emprego numa das maiores empresas de arquitetura de Nova York. O que ninguém sabe é que era Howard quem fazia a maioria dos projetos acadêmicos desse seu colega, e ele apenas completava com os adornos que os professores tanto gostavam de ver. Peter Keating é o nome do seu colega.

O tempo avança na história e vemos um Peter que prospera economicamente, enquanto Howard chega a passar fome em um escritório de arquitetura que ele montou para si próprio, conseguindo ao longo de meses apenas um pequeno trabalho ou outro. Neste período de pobreza Howard se vê obrigado a fechar o seu minúsculo escritório e ir trabalhar como minerador em uma empresa de mármore. Lá ele acaba conhecendo a filha do dono da empresa, a exuberante Dominique Francon.

Ambos são atraídos pelas personalidades fortes um do outro, o que cumina numa noite de sexo puramente físico. No dia seguinte Howard pede demissão da pedreira e vai trabalhar como pedreiro em construções de arranha-céus.

Dominique trabalha para o jornal Manchete, o maior da cidade de Nova York. Nele ela é responsável por fazer comentários em arquitetura, já que o seu pai é dono de uma das maiores firmas do gênero da cidade. Sim, a mesma empresa onde Peter trabalha.

A Manchete se tornou o que é hoje graças ao seu dono, o ex-vândalo de rua, Gail Wynand. Ele faz sempre com que o seu jornal dê ao povo o que o povo quer ler, e não fatos ou imparcialidade. Com essa receita de bolo Gail se tornou um grande e poderoso milionário.

E para encerrar a panela de pressão que é esse enredo, temos ainda a figura do Ellsworth Toohey, outro colunista da Manchete. Ele é uma espécie de 'filósofo das massas', cujas ideias sobre comunidade e bem maior, são amadas por todos.

Daqui pra frente a história começa a correr, anos se passam a medida que a trama avança. Dominique se casa duas vezes (e nenhuma delas com Howard), Gail vê seu império jornalístico ser ameaçado, Peter se torna pupilo filosófico do Ellsworth, enquanto este e Howard se identificam como nêmesis um do outro.


Eu lembro que logo que comecei a ler este livro eu me identificava em muitas vezes com o personagem de Peter Keating, e isso é assustador. Peter é mediano (medíocre) nas sua realizações profissionais, tudo o que ele faz é impulsionado unicamente para agradar alguém e depois ser elogiado por isso. Mesmo que seja algo que ele nem tivesse vontade de fazer em primeiro lugar.

O livro é recheado de frases de efeito, como a que a Howard joga na cara do reitor da universidade antes dele ser expulso:

- Não pretendo construir para ter clientes, mas ter clientes para construir.
- Como pretende forçá-los a aceitar suas idéias?
- Eu não pretendo forçar ninguém, nem ser forçado.

É uma literatura é nua e crua, ela mostra sem disfarces como é a vida daquele que pretende lutar sozinho contra o status quo do mundo. Howard passa por imensas dificuldades econômicas, tendo que por os seus sonhos de lado várias vezes, mas sem nunca abandoná-los. Quando a sua carreira parece estar dando certo, a sociedade deixa de ser um inimigo passivo para se tornar ativo e fazer tudo o que puder para destruí-lo.

Nessa história pode-se ver o contexto onde Ayn Rand iria embasar a sua obra de ficção mais famosa, a Revolta de Atlas. Na introdução do livro temos algumas palavras da própria autora, vou deixar aqui um treco muito interessante:

Eu não me senti desencorajada com frequência, e quando me senti, não durou mais que uma noite.

Mas houve uma noite, enquanto eu escrevia A Nascente, em que senti uma indignação tão profunda com o estado das ‘coisas como são’ que parecia que eu jamais recuperaria a energia para dar mais um único passo sequer na direção das ‘coisas como deveriam ser’.

Frank (seu marido) conversou comigo por horas naquela noite. Ele me convenceu de que não podemos abandonar o mundo para aqueles que desprezamos. Quando ele terminou, meu desânimo havia sumido, e nunca mais retornou de forma tão intensa.

A edição brasileira do livro é de capa dura, ao contrário da Revolta eles optaram por manter tudo em um livro só, o que acabou criando um tijolo de papel. Pessoalmente acho que podiam ter dividido em dois volumes, assim eu poderia levá-lo para ler em ônibus e afins, e talvez tivesse terminado antes =P

Não há como relatar em um espaço tão pequeno todas ideias que esse livro faz brotar dentro de nós, mas só digo uma coisa: Se você ainda tem fé na humanidade, acha que as pessoas são pobre coitadas que precisam de ajuda pra tudo, não leia Ayn Rand.


Esse livro foi adaptado para o cinema em 1949. Se acha o filme todo no YouTube, mas né, ele é em preto e branco, e obviamente resume muitas coisas do livro original.

Tem um episódio dos Simpsons onde uma das histórias é baseada nesta obra, onde a Maggie é o equivalente ao Howard Roark, só que em uma creche. É muito boa a adaptação!


E por fim, vou deixar aqui um quote do Howard do final do livro, durante o seu julgamento. Não é um spoiler sobre a história, mas sim o momento ímpar do enredo onde a autora expõe tudo em que ela acredita.

"Há milhões de anos, um homem descobriu como fazer o fogo. Provavelmente se queimou na fogueira, que ensinou seus irmãos a acender. Mas deixou-lhes um presente que eles não haviam concebido e acabou com a escuridão da Terra.

Ao longo dos séculos, houve homens que abriram novos caminhos, armados unicamente com sua própria visão. Grandes criadores, pensadores, artistas, cientistas, inventores. Estiveram sozinhos contra os homens de seu tempo.

Cada pensamento novo foi rechaçado... cada invenção nova, denunciada... mas os homens de visão de futuro seguiram em frente. Lutaram, sofreram e pagaram, mas venceram.

Nenhum criador foi impulsionado pelo desejo de satisfazer seus irmãos. Seus irmãos odiaram o presente que ele oferecia. Sua verdade era seu único motivo. Seu trabalho era seu único objetivo. Seu trabalho, não aqueles que o usaram. Sua criação, não os benefícios que outros derivaram dela. A criação que dava forma à sua verdade.

Ele sustentava a verdade sobre todas as coisas e contra todos os homens. Ele foi em frente, mesmo que outros não estiveram de acordo com ele... com sua integridade como sua única bandeira. Não serviu a nada e a ninguém. Viveu para ele mesmo... e somente vivendo para si mesmo foi capaz de conseguir as coisas que são a glória da humanidade. Essa é a natureza da realização.

O homem não pode sobreviver, exceto através de sua mente. Ele vem à Terra desarmado. Seu cérebro é sua única arma, mas a mente é um atributo do indivíduo. Não existe cérebro coletivo. O homem que pensa, deve pensar e agir por si mesmo. A mente racional não pode trabalhar sob nenhuma forma de coação. Não pode ser subordinada às necessidades, opiniões, ou desejos de outros. Não é um objeto de sacrifício.

O criador se mantém firme em seu próprio julgamento. O parasita segue as opiniões dos outros. O criador pensa. O parasita copia. O criador produz, o parasita saqueia. O interesse do criador é a conquista da natureza. O interesse do parasita é a conquista dos outros homens. O criador requer a independência. Ele não serve, nem governa. Ele trata com homens pela troca livre e pela escolha voluntária. O parasita procura o poder. O parasita quer prender todos os homens juntos, numa ação comum... e numa escravidão comum.

Ele clama que o homem é somente uma ferramenta para o uso de outros... que deve pensar como eles pensam, e agir como eles agem... vivendo na abnegação, na triste servidão a qualquer um, exceto a si mesmo.

Olhem a história. Tudo o que temos, cada grande realização... veio do trabalho independente de alguma mente independente. Cada horror e destruição... veio de tentativas de converter homens em rebanhos sem cérebros, robôs sem almas. Sem direitos pessoais, sem ambição pessoal, sem vontade, esperança ou dignidade. É um conflito antigo. Tem um outro nome. O indivídual contra o coletivo.

Nosso país, o país mais nobre na história dos homens... foi baseado no princípio do individualismo. O princípio dos direitos alienáveis do homem. Um país onde um homem era livre para buscar sua própria felicidade. Para ganhar e produzir, não render-se e não renunciar. Para prosperar, para não morrer de fome. Para conseguir, para não perecer.

Para ter como sua maior possessão, o sentido de valor pessoal... e como sua maior virtude, o seu auto-respeito.

Eu sou um arquiteto. Eu sei o que se constrói a partir das bases. Estamos nos aproximando de um mundo no qual eu não posso me permitir viver. Minhas idéias são minha propriedade. Foram retiradas de mim pela força, pela ruptura de contrato. Nenhum recurso me foi deixado.

Acreditaram que meu trabalho pertencia a outros, para fazer o que quiserem, que tinham direito sobre mim, sem o meu consentimento... que era meu dever servir-lhes, sem alternativa ou recompensa.

Agora vocês sabem porque eu dinamitei Cortlandt. Eu projetei Cortlandt... eu o fiz possível... eu o destrui. Eu concordei projetá-lo, com a finalidade de vê-lo construído como eu desejei. Esse foi o preço que eu coloquei em meu trabalho. Eu não fui pago. Meu edifício foi desfigurado pelos que se beneficiaram com o meu trabalho e não me deram nada em troca.

Eu vim aqui dizer que eu não reconheço... o direito de ninguém a um minuto de minha vida. Nem a qualquer parte de minha energia, nem a alguma de minhas realizações. Não importa quem faça a reivindicação.

Tem que ser dito. O mundo está perecendo em uma orgia de auto-sacrifício.

Eu vim aqui para ser ouvido... em nome de cada homem independente que há ainda no mundo. Eu quis estabelecer meus termos. Eu não quero trabalhar ou viver como alguns outros.

Meus termos são o direito do homem de existir por suas próprias razões."


RESUMO
Autor: Ayn Rand
Editora:  Landscape
Numero de páginas: 816
Ano de lançamento: 2008 (Brasil) & 1943 (EUA)
Compre: Saraiva
Nota: 9/10

3 comentários:

  1. Olá Renan que super post, adorei demais conhecer o livro e tudo relacionado sobre ele...Mas não consegui achar um site para ver o preço =(
    Tem alguma indicação aonde compra-lo??
    Parabéns pelo post, ficou show!!

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    1. Obrigado pelo comentário Michelli, é um livro sensacional mesmo :)

      O site da Saraiva infelizmente está fora do ar como um todo, no geral é difícil achar os livros da autora no Brasil. Mas esse foi recentemente relançado pela Editora Arqueiro (e agora ele vem num box já que foi dividido em 2 volumes), e tu acha aqui:

      http://www.extra.com.br/livros/LivrodeLiteraturaEstrangeira/Romance/Livro-A-Nascente-Volume-I-e-II-Ayn-Rand-2491799.html

      :)

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  2. Eu li as duas únicas obras de Rand vendidas no brasil; eu as comprei na Livraria Cultura.
    Quando eu estudava nos EUA eu li sua primeira obra, "We the Living"; Nós os Viventes. É sensacional, mas não é encontrado aqui.
    Há pouco eu fiz o pedido de "Anthem"; Hino, mas deve demorar, pois não tem versão em português.
    A Revolta de Atlas é melhor que A Nascente, mas os dois se completam. A Revolta de Atlas deveria ser de leitura obrigatória, já no final do Ensino Fundamental II. Se as pessoas o lessem, não haveria PT, PSC e nem esses políticos da bíblia, que não passam de bandidos, igualmente o PT, que é, na verdade, um grupo criminoso.

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