sábado, 13 de julho de 2013

A Derrota do Amor #03 - FINAL

capitulo anterior


Obra de Jaco Galtran.

A DERROTA DO AMOR  -  CAP. 03

"Amanhecera. Laysy sentia-se desconfortável. Fora tomada, dominada, abusada de formas que ela jamais imaginou ser possível. Cada fibra de seu corpo latejava em sinal de protesto. Sentiu certo asco quando se olhou no espelho. Não pelos cabelos desgrenhados, nem pelas olheiras acusando a noite mal-dormida, mas por ter permitido que sua alma e suas convicções de fidelidade fossem violentadas. Tentou convencer a si mesma que tudo aquilo tinha sido por amor repetindo a si mesma “O amor vai vencer”. Aprumou-se, penteou-se, lavou o rosto, e pediu ao lorde que a deixasse tomar banho. Cavilán assentiu, indicou uma porta que levava ao banheiro, e disse que enquanto isso daria início aos preparativos da cerimônia.
Duas horas se passaram e tudo já estava pronto. Desta vez, o aposento era outro. Havia apenas um grande altar. Na parede principal, a imagem de uma mulher, a mais linda e voluptuosa delas, nua, sentada em um trono. Laysy fez força para não cair de joelhos e adorar tamanha beleza. Nas demais paredes, imagens retratando casais em momentos de intimidade, mulheres sendo sodomizadas por vários homens ao mesmo tempo, crianças tomando vinho e outras bebidas, jovens consumindo ervas alucinógenas, e até idosos sucumbindo aos prazeres da carne. Algumas pinturas mostravam mulheres junto a mulheres, e homens junto a homens realizando seus prazeres mais ocultos sem nenhum pudor. Tudo reproduzido com uma riqueza de detalhes impressionante. A jovem sentiu seu corpo reagir àquelas figuras e perdeu o controle sobre si mesma, desejando fazer parte daquela paisagem e entregar-se à luxúria. Pensou em Kilgard, em quanto o amava, e o quanto batalhou para ter aquela chance. “O amor vai vencer”, pensava, lutando contra o que seu corpo sentia. 

- Aquela é a deusa Kundaline – Cavilán, ajoelhado, apontou para a mulher sentada no trono.

Laysy prostrou-se imediatamente e foi tomada por uma vontade irresistível de beijar os pés santos daquela deusa, e depois beijar mais e mais partes de seu corpo. Baixou a cabeça até o chão em sinal de reverência, mas também porque não queria mais ver aquilo. Queria apenas pensar em rever seu amado. Em poder reencontrá-lo, em sentir outra vez o calor de seu abraço, em poder tocar seus lábios de novo. Queria somente olhar fundo dentro daqueles olhos negros, ver à sua frente aquele sorriso inocente, ouvir aquela voz grave e decidida. Todas aquelas sensações vulgares que a invadiram eram um mal necessário, para que, no fim, o amor triunfasse. Sim, o amor iria vencer.
Lorde Cavilán colocou sobre o altar um jarro de vinho como sinal de oferenda. Começou a recitar litanias e entoar cânticos. Levantou-se, despiu-se, aproximou-se mais do altar e voltou a se prostrar. Mais litanias, mais louvores, mais gestos cerimoniais que não faziam sentido para Laysy. Mais demora e mais angústia. Mas enfim, o milagre seria solicitado.

- Rainha dos Deuses. Prostro-me humildemente ante sua grandeza pedindo-lhe mais uma demonstração de sua graça, glória, poder e soberania. Manifesta sua onipotência realizando meu desejo. Concede-nos a graça que, nós teus servos, mortais, não conseguimos por nós mesmos. Ressuscita o jovem Kilgard. Atende meu desejo, minha soberana absoluta. Realiza o milagre. 

Houve um clarão imenso que cegou a todos por longos minutos.


***

Por longos meses, chuvas torrenciais castigaram aquele povo. O sol já não era visto há muito tempo. As ocasionais aparições da lua em madrugadas tempestuosas pareciam ser os olhos castanhos dos deuses do amor derramando lágrimas sobre o mundo dos mortais. Os pássaros não mais cantarolavam durante o amanhecer, as corujas não piavam quando anoitecia, e os horizontes pareciam estar condenados a serem eternos borrões cinzentos.
Laysy chorou por semanas. Os deuses haviam dito “não” a seu pedido. O milagre não se realizou. Os esforços e as humilhações foram todos em vão. O amor fora derrotado. Kilgard jamais voltaria a vida.

E deste pesadelo, ela não acordaria.


***

Escuridão, e nada mais. Ela estava assustada. Calafrios, e a inquietante certeza de estar sendo seguida. O medo de olhar para trás era maior do que a curiosidade de saber onde estava, ou quem a seguia. Até que uma voz familiar fez seu coração explodir.

- Laysy...

Virou-se e viu luz. De frente a ela, simplesmente o rosto que ela suplicou aos deuses poder voltar a ver. Kilgard.

- Agora que nos reencontramos... Quero lhe dizer adeus...
- Kilgard, meu amor, não diga isso. Você está aqui de novo. Ficaremos juntos para sempre.

O sorriso inocente dele parecia inabalável.

- Chegou a hora de você seguir seu caminho sem mim. 
- Não, meu amor. Sem você a vida não tem sentido – Laysy começou a chorar de desespero. Não era assim que ela imaginava o reencontro.
- Você é jovem. Tem muito pela frente. Está na hora de voltar a se apaixonar.
- Não – ela gritou até faltar o ar – É você que eu quero. Se não for você, não será ninguém.

Laysy se descontrolou e não conseguiu mais falar. Kilgard continuou.

- Eu ficaria muito feliz se visse você sorrindo de novo.
- Por que está dizendo isso? Você não sente minha falta? Você já me esqueceu?
- Você sabe que eu jamais poderei te esquecer. Só os deuses sabem o quanto você sofre por ainda me amar. Há muita coisa que eu gostaria de ter dito a você.

Laysy era apenas descontrole e lágrimas. Soluçava compulsivamente, tentava achar as palavras para interromper seu amado, para convencê-lo a não abandoná-la, ou a levá-la com ele, mas não conseguia falar. Havia um nó na garganta que dificultava a respiração e a fala. Só restava ouvir.

- Você é quem eu mais amo, minha flor. Não lamente pela minha vida que se foi. Cada vez que você fala de mim, ou pensa em mim, eu me sinto vivo novamente. Mas quando você chora, é como se eu morresse outra vez.

Kilgard começou a se afastar. Sua voz foi ficando mais distante. A luz ao redor dele foi se apagando.

- Não me deixe! – Laysy gritava a plenos pulmões – Não me deixe, eu imploro.
- Agora que vamos nos despedir para sempre, quero que saiba que cuidarei de você lá de cima. Vou proteger seus sonhos, iluminar suas noites e enxugar suas lágrimas. Quando você ouvir o vento bater em sua janela, será meu espírito vindo te dizer “boa noite”. Vou espantar seus medos. E vou te esperar.
- Não Kilgard, não faça isso – desespero, pranto e gritos – E Kirahn? E nosso filho? Ele precisa de você. Eu preciso.
- Os deuses cuidarão dele. Eu tenho que ir. Volte a se apaixonar. E, por favor, não chore.

A voz de Kilgard ficou distante. A escuridão deu lugar a uma noite enluarada. A imagem dele foi desaparecendo. 

- Olhe para o céu, e você me verá de novo. Nunca me esqueça. Porque eu...

Naquele instante uma estrela no céu brilhou mais forte.

- Eu nunca te esquecerei. "


Fim.
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N/R: Bem amigos, chegou ao fim esta incrível obra.
Não sei se vocês gostaram, mas eu honestamente amei esse texto. Acho que principalmente por este final surpreendente.

Então estou usando esse pequeno N/R para agradecer a todos vocês que leram "A Derrota do Amor". E também para parabenizar meu amigo Jaco Galtran que autorizou a publicação da série aqui no FB.

Esse não é um adeus. Quem sabe em um futuro próximo não veremos outra obra dele aqui em nosso blog?

Enquanto isso, vocês podem ir conhecer o blog dele: Contos de RPG

Até a próxima. :D

5 comentários:

  1. Quanto sentimento!!
    Eu acho que senti vários deles!!
    Você escreve muito, muito bem!
    Parabéns!

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    1. É mesmo, Rossana. O final ficou muito bonito. Cheio de amor.

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    2. Achei intensa a parte que ele diz que quando ela sentir o vento na janela, seria o espírito dele dizendo boa noite. Que poético, isso!

      Parabéns!!!

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  2. Nós é que agradecemos por ter postado. O autor escreve muito bem. Eu gostei muito.

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    1. Que isso não seja um adeus, mas sim um ATÉ LOGO. Que possamos acompanhar aqui mais histórias do Jaco.

      Abraço!!!

      Muito sucesso...

      http://ymaia.blogspot.com.br/

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