sábado, 6 de julho de 2013

A Derrota do Amor #02

Capitulo Anterior.



Obra de Jaco Galtran.

A DERROTA DO AMOR - CAP. 02



"Seu pelo era liso e totalmente albino. Acima dos cascos, quatro patas grossas e fortes. Tinha também um rabo comprido que se recusava a ficar quieto, olhos de um azul tão claro que pareciam ser mero reflexo de um riacho de água límpida, e um chifre espiralado que saía do alto de sua testa.

Jyuuh era um dos poucos unicórnios que havia naquelas terras. Em tempos remotos, eles eram a única espécie que habitava aquela parte do continente. Mas, por algum motivo, nos dias atuais eles não podiam mais ser encontrados. Comentava-se que teriam sido extintos.

Muitos estudiosos imaginavam que o poder e sabedoria dos unicórnios se fizeram necessários em algum outro plano da existência, ou mesmo nos reinos dos deuses. Havia quem afirmasse que foi a maldade crescente no continente que os motivou a abandonar nosso mundo. E uns poucos ainda cogitavam a possibilidade de os unicórnios só existirem se houvesse quem acreditasse neles. 

Quaisquer que fossem os motivos, Jyuuh estava e sempre esteve naquela região – e agora teria uma das conversas mais importantes desde que lá chegou. 


- Eu consigo entender o que você está sentindo, Laysy. Mas Kirahn precisa de você aqui.
- Kirahn também precisa do pai dele aqui – ela não conseguiu continuar. Grossas lágrimas encharcaram a face perfeita. O azul do céu foi tomado por nuvens tempestuosas ao ver o rosto mais sublime da criação dominado pela tristeza.
- Você não será capaz. Outras pessoas mais capazes já tentaram e falharam.
- Já estou decidida... – as palavras saíam com dificuldade, intercaladas por soluços descontrolados.

Laysy olhou para o céu. Nublado, tomado por um cinza mórbido. O azul que há pouco exibia se descoloriu protestando contra o sofrimento da jovem. Ela aproximou-se de seu fiel companheiro e acariciou o pelo macio de sua cabeça.

- Você vai me ajudar?– os soluços estavam diminuindo.
- É para isso que estou aqui – a resposta veio cheia de ternura. 

Com a ajuda sobrenatural de Jyuuh, chegaria a seu destino. Um lugar onde, talvez, houvesse uma esperança. A hora de se lamentar já tinha passado. Parou de chorar. O céu voltou a exibir um azul esplendoroso.

***

Em uma luxuosa cadeira posicionada de modo a permitir a visualização de boa parte daquele ambiente, Laysy começou a reparar na exótica decoração do lugar. Candelabros de prata ostentavam incensos com aromas afrodisíacos intercalados a velas que iluminavam partes específicas do local – resultando em um intencional clima de mistério sobre o que poderia haver nos demais aposentos. As paredes eram ornamentadas com tapeçarias antigas, suportes de bronze contendo jarros de ouro, e brasões de famílias nobres da região. Acima, uma sacada sobre a qual estavam debruçados nobres de trajes finos e diversos músicos encapuzados. Os encadeamentos harmônicos do dedilhar de suas balalaicas eram complementados pelo lirismo das melodias das flautas doces. Isso musicalizava o ambiente de tal forma a abafar a cacofonia das vozes desencontradas de clientes e serviçais se comunicando. As mesas foram colocadas de maneira a facilitar a constante passagem de criados carregando bandejas de cristal repletas de taças de vinho. 



- É por nossa conta, senhorita – um dos criados deixou sobre a mesa em que Laysy estava uma taça de vinho – Nosso lorde logo estará aqui para atendê-la, senhorita. Ele pediu que o aguarde, e, se precisar de alguma coisa, nos chame. Com sua licença – o serviçal fez uma mesura. 



Poucos minutos se passaram até que alguém descesse escadas e viesse em direção à mesa de Laysy. Era um homem extremamente alto e magro. Seu nariz era fino, tinha cabelos curtos dispostos em regiões especificas da cabeça, e uma barba rala adornando a face sorridente. Vestia um traje fino extremamente formal, sapatos negros, e trazia na mão uma rosa – que entregou a sua visitante assim que se sentou à mesa.


- Espero não tê-la feito esperar demais, senhorita – Lorde Cavilán beijou demoradamente a mão de Laysy.
- Não, claro que não.
- Demorei porque quis me certificar que todos os meus assuntos estariam resolvidos. Assim posso lhe dar toda a atenção que merece, senhorita.
- Não precisa me chamar de senhorita – disse tentando disfarçar o constrangimento – Pode me chamar de Laysy.
- Como quiser, Laysy.

Outro serviçal se aproximou e serviu generosas quantidades de vinho na taça de Laysy. Lorde Cavilán rejeitou polidamente a oferta do criado e pediu que ele se retirasse.

- Gostaria que você viesse conhecer a mim e a meu estabelecimento em circunstâncias mais felizes, mas, seja como for, estou disposto a ajudá-la com o que precisar.
- Na verdade, gostaria de não precisar nunca fazer o que vou fazer – bebeu um gole de vinho para disfarçar o constrangimento. 
- Entendo. Espero que não me interprete mal por lhe pedir algo em troca. Mas você entende que isso é parte de meus deveres religiosos.

Laysy terminou de sorver o conteúdo da taça. Lorde Cavilán fez um gesto a um dos empregados para que trouxesse mais vinho.

- Espero que esteja apreciando meu vinho.
- Pode me falar mais sobre sua fé – Laysy queria acabar logo com aquilo.
- Claro – Lorde Cavilán esperou o servo terminar de encher a taça de sua convidada para então continuar – Kundaline. A deusa da paixão. Ela é minha patrona. Alguns povos a chamam de “deusa da promiscuidade”, “deusa da devassidão”, entre outros títulos pejorativos. Eu considero isso um grande desrespeito. Minha deusa prega a busca pelos prazeres da vida, sem que nos prendamos a amarras morais decadentes. Algumas pessoas – falsos moralistas – confundem isso com vulgaridade. Mas eu lhe digo que não é. E você pode comprovar pelo ambiente fino e reservado em que está. 

Laysy voltou a beber o vinho, enquanto ouvia seu anfitrião atentamente.

- Agora me diga, minha dama: eu prejudico alguém fazendo o que eu faço? Todos que estão aqui estão por vontade própria. Nenhum deles faz mal a alguém.
- Não quero questionar suas convicções, Lorde Cavilán. Mas tenho pressa. Desculpe, se estou faltando com a educação, mas tenho muita pressa.
- Mil perdões, doce Laysy. Queria apenas me certificar que não ficaria com uma impressão equivocada a meu respeito.

Mais do que o dono do estabelecimento, Lorde Cavilán era um sacerdote. Um servo de Kundaline, a deusa da paixão. E por sua devoção irrestrita, recebia, assim como seus pares (de qualquer divindade), poderes clericais. Chamadas de bênçãos, preces, ou dádivas, eram, na prática, magias. E Cavilán, um dos mais poderosos clérigos de sua deusa, tinha poder para conjurar as mais poderosas delas. Por isso fora procurado por Laysy.
De todas as magias lançadas por um sacerdote, a mais poderosa delas era conhecida como “Milagre”. Mais do que uma simples conjuração arcana, era uma súplica feita pelo servo após um ritual solicitando que sua divindade o atenda. Segundo as lendas – que por sinal eram bastante reais – “milagres” só não eram atendidos quando se pedia algo que contrariasse a vontade insondável dos deuses. O que era raro. E por vontade dos deuses, coincidência, ou decisão do destino, Cavilán era, de todos os servos de Kundaline, o único capaz de invocar essa magia.
Laysy o procurou querendo que ele usasse esse poder para pedir à deusa dele que Kilgard voltasse a vida. Não eram raras as histórias contadas por bardos em tavernas sobre servos dos deuses ressuscitando pessoas. Disposta a fazer qualquer coisa pelo seu amado, aceitou até a humilhante exigência do lorde. 
Cavilán era, além de tudo aquilo, o dono de um dos mais “conceituados” lupanares daquelas terras. Laysy era a mais maravilhosa mulher já concebida pelas mãos dos deuses. Tal combinação só poderia resultar naquilo: ela teria que passar uma noite “entregue” aos caprichos do lorde. Faria qualquer coisa, aceitaria qualquer ordem, o agradaria de todas as formas solicitadas. Seria escrava dos desejos pervertidos de alguém cuja imaginação era extremamente suja. Em troca, na manhã seguinte, Lorde Cavilán invocaria o “Milagre”. 

- Vou fazer isso por amor – Laysy pensava consigo mesma enquanto ingressava timidamente no quarto em que passaria a noite – Perdoe-me, Kilgard, mas preciso fazer isso. Por você! Por amor! E o amor vai vencer.

A porta do aposento foi fechada."

Continua...

16 comentários:

  1. Surpreendente a forma com que você faz as descrições dos cenários. Gostei também da descrição inicial do unicórnio. Perfeita!

    Detalhes que fazem a diferença.
    Parabéns!!!

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    1. Realmente o unicórnio e todo aquele lugar são lindos!
      Adorei!

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    2. Essa obra não é minha, ela é de meu amigo Jaco Galtran, dono do blog Contos de RPG.

      Nós fizemos um intercambio, eu postei uma mini série no blog dele chamada de Prefacio do Novo Mundo, inspirada no passado de alguns personagens de BdNM.

      Em troca ele autorizou a publicação de A Derrota do Amor aqui no FB. :D

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    3. Ah, muuito legaal isso.
      Qual o blog dele para eu poder ver sua mini série ?

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    4. Legal. Gostei da história.

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    5. Uma vez eu tentei escrever uma novela com 30 capítulos no meu blog, mas não deu muito certo. Boa sorte a você e ao Jaco!

      http://ymaia.blogspot.com.br/

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  2. Nossa, eu viagem na decoração daquele lugar onde a Laysy estava! Fiquei imaginando aquelas flautas doces tocando!
    Lindo cenário!

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    1. "As mesas foram colocadas de maneira a facilitar a constante passagem de criados carregando bandejas de cristal repletas de taças de vinho."

      ESSA DESCRIÇÃO É DIGNA DO CENÁRIO DO FILME "TITANIC".
      PELO MENOS FOI ASSIM QUE EU IMAGINEI QUANDO LI.

      ABRAÇO!

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    2. Ele escreve muito bem. Muito detalhista. O texto nos passa veracidade. Tem futuro.

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  3. E sem falar que você escreve com muito sentimento, adoro quem faz isso e ainda consegue passar para o leitor, porque para mim foi isso que passou. Parabéns!

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  4. Flávio, muito obrigado pelo espaço.

    Rossana, "A Derrota do Amor" acaba semana que vem, mas você pode ler mais contos meus no http://contosderpg.blogspot.com ou no contosdefantasia.wordpress.com ou ainda no meu wattpad http://www.wattpad.com/user/JacoGaltran. Não deixe também de baixar gratuitamente meu conto "Guerra nos Nove Mundos" no link http://www.4shared.com/get/hMhWWbum/guerra_nos_nove_mundos.html

    Abraço a todos.

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    1. Quando eu estiver menos atarefado vou passar para conferir A NOITE MAIS FÚNEBRE.

      Parabéns!!!

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