quinta-feira, 6 de junho de 2013

Trechos De Um Livro... - Antes de morrer.


Afasto seu braço e me sento para olhar pra ele. Meu pai tem cheiro de fumaça e cerveja choca, e parece mais velho do que na minha lembrança. Posso ouvir seu coração, também, coisa que não acho que deveria acontecer.

- Que droga você está fazendo?

- Você nunca conversa comigo, Tess.

- E você acha que isso vai ajudar?

Ele dá de ombros.

- Talvez.

- Você gostaria que eu entrasse na sua cama quando você estivesse dormindo?

- Você sempre entrava quando era pequena. Dizia que era injusto ter que dormir sozinha. Toda noite, eu e mamãe deixávamos você entrar porque você estava se sentindo sozinha. 

Tenho certeza de que não é verdade porque não me lembro. Talvez ele tenha enlouquecido.

- Bom, se você não vai sair da minha cama, saio eu.

- Ótimo – diz ele. – Eu quero que você saia.

- E você vai simplesmente ficar aí, é?

Ele sorri e se aninha debaixo do edredom.

- Está quentinho, uma delícia.

Sinto as pernas fracas. Não comi muito na véspera e isso parece ter me deixado transparente. Seguro o dossel da cama, cambaleio até a janela e olho lá para fora. Ainda está cedo: a lua se apaga em um céu cinza-claro.

- Faz um tempo que você não vê a Zoey – diz papai.

- É.

- O que aconteceu naquela noite em que vocês duas saíram para dançar? Vocês brigaram?

No jardim lá embaixo, a bola de futebol cor de laranja de Cal parece um planeta murcho sobre a grama e, na casa vizinha, vejo novamente aquele menino. Pressiono as palmas das mãos na vidraça. Todo dia de manhã ele está no jardim fazendo alguma coisa – varrendo, cavando ou andando de um lado para o outro. Agora está arrancando galhos secos da cerca e empilhando-os para fazer uma fogueira.

- Você ouviu o que eu disse, Tess?

- Ouvi, mas estou te ignorando.

- Talvez fosse bom você pensar em voltar para o colégio. Assim poderia encontrar alguns dos seus outros amigos.

Viro-me para olhar para ele.

- Eu não tenho nenhum outro amigo. E, antes de você sugerir isso, também não quero arrumar nenhum. Não estou interessada em gente curiosa e mórbida que só quer me conhecer pra poder receber pêsames no meu enterro.

Ele da um suspiro, puxa o edredom até junto o queixo e sacode a cabeça para mim.

- Você não deveria falar assim. Cinismo não te faz bem.

- Você leu isso em algum lugar?

- O otimismo fortalece o sistema imunológico.

- Então é culpa minha eu estar doente, é isso?

- Você sabe que eu não acho isso.

- Bom, você sempre age como se tudo que eu faço estivesse errado.

Ele se esforça para se levantar.

- Não ajo, não!

- Age, sim. Como se eu não estivesse morrendo do jeito certo. Vive entrando no meu quarto e me dizendo pra eu sair da cama ou pra não desmoronar. Agora vem me dizer pra voltar pro colégio. Que ridículo!

Atravesso o quarto pisando firme, pego seus chinelos e os calço. São grandes demais para mim, mas nem ligo. Papai se apóia nos cotovelos para me olhar. Pela sua cara, parece até que eu bati nele.

- Não vai embora. Pra onde você está indo?

- Pra longe de você.

Sinto prazer em bater a porta. Ele que fique com a minha cama. Não estou nem aí. Pode ficar lá deitado até apodrecer.


Compre: Saraiva

4 comentários:

  1. Esse livro é lindo! E é impossível não gostar da Tessa ou não se apaixonar pelo Adam. E o final.. cheguei até a me arrepiar quando li D:

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    1. Eu me desanimei sobre ler o livro, pois achei o filme muito chato.

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    2. Li resenhas elogiando e outras detonando este livro, só lendo mesmo para ter uma opinião mais concreta.
      Só com um trecho assim é difícil tirar conclusões.

      Não desanime... Leia!!!

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  2. Adorei esse trecho, apesar de não conhecer o livro, mas me interessei por ele agora quero ler o resto.

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