sábado, 29 de junho de 2013

A Derrota do Amor #01

Bom dia amigos leitores, 

Estou aqui hoje para trazer uma mini-série que me conquistou demais.
Como já havia anunciado quinta-feira, eu estou escrevendo uma série baseada em BdNM em outro blog. 
Neste "intercâmbio" de blogs, estou trazendo um incrível conto escrito por meu amigo Jaco Galtran.

Serão 3 capítulos fantásticos e um final surpreendente. Então não percam nenhum capítulo. :P


Obra de Jaco Galtran.

A DERROTA DO AMOR - CAP. 01.


"Faz exatos doze anos. Nesta mesma região, uma gigantesca caravana formada por gente vinda de diversas partes do continente festejava. O motivo exato da comemoração, e o que motivou aqueles povos a virem para cá, não se sabe – embora haja especulações a respeito. Qualquer que fosse a razão, havia milhares de pessoas, com destaque para a presença acentuada de mulheres e crianças. Um clima de alegria e festividade poucas vezes visto na história documentada de nosso mundo. 
Foi então que eles surgiram. Revoadas de dragões negros cuspindo ácido e ceifando vidas. As pessoas correram, mas não havia tempo para fugir, nem onde se abrigar. Jatos corrosivos dissecaram os corpos, garras afiadas perfuraram gargantas e decapitaram tantos quantos conseguiram. Até onde se sabe, ninguém foi poupado.
A razão pela qual os dragões apareceram até hoje não foi descoberta. Bardos apresentam explicações controversas, sendo a mais comum delas a que atribui a aparição dos assassinos à mesma causa que reuniu as pessoas no local. Estudiosos, na procura de outras hipóteses igualmente aceitáveis, afirmam que o mais provável é que o ataque tenha sido uma demonstração de insatisfação dos deuses malignos com a alegria daquela gente.
Após o ocorrido, um enorme memorial – este que vocês vêem – foi criado para abrigar não os corpos (já desfigurados pela ação corrosiva do tempo), mas as lembranças daqueles que morreram. Não havendo cadáveres para enterrar, as rosas – abundantes na região – foram usadas para formar as “lápides”. Ao invés de caixões negros, coloridas flores primaveris. Foi a forma que as pessoas enlutadas acharam de encarar a tragédia. Não como um fim, mas sim como um recomeço – seguindo o exemplo das rosas do local, que renovam suas pétalas a cada mudança de estação. 
Após a chacina, tornou-se tradição entre as famílias das vítimas visitar esse local anualmente. Há dois anos, todos nós estávamos de viagem por esta região exatamente nesta data. Assim como hoje, havia um clima de tristeza e saudade. 
Mas o pior ainda estava por vir. Novamente este local foi atacado. Desta vez, apenas um dragão. Era vermelho, e parecia jovem – para os padrões de sua raça, é claro. Chegou surpreendendo a todos e trazendo mais morte e violência. Mais corpos desfigurados, mais mães chorando a morte de seus filhos, mais cadáveres navegando em rios de sangue. 
Nós estávamos aqui na ocasião. De passagem, sem rumo, seguindo nossas intuições, e viajando pelo mundo movidos pelo simples prazer de conhecer novos lugares, povos e desafios. Éramos não mais que aventureiros, como milhares de outros que habitam o continente. Lutadores por vocação, viajantes por escolha e adversários de um dragão por imposição do destino. Havíamos parado para renovar nossos suprimentos exatamente aqui, exatamente no momento do ataque.
Como já disse, o dragão era vermelho, e, como tal, soprou violentos jatos de fogo. Planou nos atacando com suas garras, o que o deixou suficientemente perto para que nós pudéssemos contra-atacar. Foram minutos de uma violenta batalha. Usamos todos os nossos recursos. Fizemos o que pudemos. Mas o maldito não se deixava abater. E mais pessoas foram morrendo. 
Até que ‘ele’ fez o impensável. Suplicando aos deuses da justiça que o abençoassem, lançou-se espada em punho em direção ao peito do inimigo, partindo-o e fazendo-o sangrar. O preço a ser pago, entretanto, foi alto demais: seu coração foi trespassado pela garra do dragão, o que resultou em sua morte.
O vil algoz, que tantas vidas ceifou, caíra derrotado. Nosso grande amigo não pôde fazer mais do que proferir umas poucas palavras de despedida. Disse que o sacrifício era o destino de um cavaleiro. Que uma vida estava se perdendo para que dezenas de outras fossem salvas. Que em nome da justiça, nenhum preço era alto demais para ser pago. 
Ele morreu. E por isso, dois anos depois, estamos aqui.”

***

Ela era lindíssima. 
Seus longos cabelos desciam até um palmo abaixo dos ombros. Olhando de longe, pareciam ser feitos da mais fina seda encontrada nos casulos que repousavam sobre os galhos das árvores. Olhando de perto, percebia-se que nem mesmo a natureza seria capaz de produzir algo que rivalizasse com aqueles fios loiro-dourados. 
O corpo era sinuoso o bastante para levar um homem, ou milhares deles, à loucura. Os seios eram volumosos, as pernas bem torneadas, e os quadris pareciam milimetricamente delineados pelos deuses da beleza. Mas nada se comparava ao rosto angelical daquela jovem.
O sorriso era enlouquecedoramente lindo. Exibia uma mistura de pureza e inocência que fazia inconcebível pensar que ela pudesse ter qualquer imperfeição, qualquer defeito. Compará-la aos anjos mais sublimes dos céus seria conceder a estes a maior das honrarias. Talvez nem mesmo os príncipes arcanjos ou as rainhas das fadas merecessem um elogio dessa magnitude. 
Sendo ela tão graciosa, não poderia haver injustiça tão revoltante quanto saber que havia tristeza naquele coração. Vê-la derrubar uma lágrima, qualquer que fosse o motivo, era um crime contra toda a Criação, motivo suficiente para que os horizontes ficassem cinzentos prevendo dilúvios que castigariam tudo que existe abaixo deles. E não seriam chuvas torrenciais, mas sim o sol, escondido atrás nas nuvens carregadas, chorando angustiadamente. 
Apesar disso, Laysy estava em prantos. Naquela manhã, o sol brilhou mais tímido, as nuvens acinzentaram mais o horizonte, os pássaros pararam de cantar. Ela acordou com o travesseiro inundado de lágrimas. Os deuses, que há tempos não ouviam mais suas preces, agora também se recusavam a proteger seu sono.
Mais uma vez aquelas cenas de tristeza e violência assombraram seus sonhos. Reviu Kilgard, seus amigos e as centenas de pessoas inocentes frente a frente com o dragão. Reviu as baforadas ígneas de imensurável poder destrutivo, lares em chamas, os pais gritando por seus filhos, as crianças morrendo soterradas pelos destroços de suas casas. Relembrou, contra à vontade, toda a morte, a bravura, o sangue e as lágrimas. De novo e de novo, imagens apareciam e reapareciam perfurando seu coração da mesma forma que as garras dracônicas perfuravam os corpos dos pobres camponeses. E em meio ao turbilhão de recordações dolorosas, o momento derradeiro: “Olhe para o céu, e você me verá de novo”, disse Kilgard, cuspindo generosas quantidades de sangue em jorros intermitentes. Laysy segurou com força a mão de seu grande amor e implorou aos deuses que não o deixassem morrer. A única resposta veio do próprio Kilgard: “Olhe para o céu, e você me verá de novo”. 
Seu amado estava morto. E deste pesadelo ela não podia acordar. Secou os olhos com as costas das mãos, levantou-se, empertigou-se, e saiu decidida. Kilgard teria que voltar a vida. 

***

- Seus pais estão cientes do que você vai fazer? – a voz era tão familiar que Laysy nem precisou se virar para saber quem era – Ou eles irão descobrir da pior maneira?
- Eles vão descobrir – havia um tom de certeza na voz dela – quando for tarde demais para me impedirem.
- Se você acha que eles tentariam te impedir é porque você sabe que o que vai fazer é reprovável. 
- O que eu sei – a jovem virou-se – é que eles não me entenderiam.

Houve um momento de silêncio. Ele sabia que não iria convencê-la a desistir. E ela sabia que ele não desistiria de tentar. 

- Os amigos dele não hesitaram. Não ficaram aqui se lamentando. Falharam, mas ao menos tentaram.
- Você não é nenhum deles. Não tem os mesmos recursos que eles. 
- Ficar aqui sem fazer nada vai resolver alguma coisa?
- Evitará mais problemas. Não se esqueça que há alguém aqui que precisa muito de você.

Mais lágrimas. O sol se escondeu atrás das nuvens em protesto. O verde do gramado se empalideceu.

Continua...

2 comentários:

  1. Boa sorte na continuidade da mini-série. Gostei!

    ResponderExcluir
  2. Adorei, e boa sorte na sua série, e eu adorei essa mini serie ansiosa para os outros capítulos.

    ResponderExcluir