quinta-feira, 9 de maio de 2013

Trechos De Um Livro... - Segredo.


Meu rosto ardia enquanto me afastava da mesa, enfiando o cartão de crédito no avental. Fui direto para o banheiro, jogar água fria no rosto. Alisei meu avental e me olhei no espelho. Eu usava aquela roupa marrom porque era prático. Não posso usar vestido.

Sou uma garçonete. Quanto ao meu rabo de cavalo bagunçado, os cabelos precisam ficar presos para trás. É o regulamento. Acho até que eu poderia mantê-los escovados para trás, mais alisados, em vez de prendê-los de qualquer jeito com um elástico, como um punhado de aspargos. Meus sapatos eram os de uma mulher que não prestava muita atenção aos seus pés, apesar de quanto já me haviam dito que eram belos. E era verdade que eu não ia a uma manicure profissional desde a noite anterior ao meu casamento. Mas essas coisas são um desperdício de dinheiro. Mesmo assim, como eu deixara chegar a esse ponto? Eu tinha me desleixado oficialmente. Cinco Anos despencara contra a porta do banheiro, exausto. Voltei para a mesa com o recibo do cartão de crédito, evitando estabelecer contato visual com qualquer um dos dois.

“Você já trabalha aqui há muito tempo?”, perguntou o homem, enquanto a mulher rabiscava a sua assinatura.

“Cerca de quatro anos.”

“Você é muito boa em seu trabalho.”

“Obrigada.” Senti aumentar o calor no rosto.

“Vemos você na semana que vem”, disse a mulher. “Eu simplesmente amo este velho lugar.”

“Ele já viu épocas melhores.”

“É perfeito para nós”, acrescentou, entregando-me a conta e piscando para o homem.

Olhei para a assinatura dela, esperando algo complexo e interessante. Pauline Davis parecia simples e pequeno, o que, para mim, naquele momento, foi um tanto reconfortante.

Meus olhos seguiram o casal enquanto eles saíam, passando pelas mesas, e até chegarem ao lado de fora, onde se beijaram e se separaram. Assim que passou pela janela da frente, a mulher olhou para mim e acenou. Eu devia parecer uma imbecil, ali, em pé, encarando-os. Acenei timidamente para ela através do vidro empoeirado.

Meu transe foi quebrado por uma idosa, sentada na mesa ao lado. “Aquela senhora deixou cair alguma coisa”, disse ela, apontando para debaixo da mesa.

Inclinei-me para apanhar um caderninho de notas, cor de vinho. Parecia bastante usado e era suave ao toque. A capa tinha as iniciais PD gravadas a ouro, o mesmo ouro que banhava as extremidades das páginas. Abri a primeira página com cuidado, procurando o endereço ou o número de Pauline, e acidentalmente vislumbrei um pouco do conteúdo: ... sua boca em mim... nunca me senti tão viva... aquilo me atravessou como algo branco e quente... vindo sobre mim em ondas, redemoinhos... curvou-me sobre o...

Fechei o diário com um estalido.

“Você ainda consegue alcançá-la”, disse a mulher, lentamente, mastigando um folhado. Notei que lhe faltava um dente da frente.

“Acho que ela já foi”, eu disse. “Eu vou só... guardá-lo. Ela vem sempre aqui.”

A mulher deu de ombros e arrancou outra mordida de seu croissant. Meti o caderninho em meu bolso de garçonete, senti um arrepio de emoção percorrendo a espinha. Pelo resto de meu turno, até Tracina chegar espalhando seu insuportável cheiro de chiclete, os cachos em espiral balançando no rabo de cavalo preso no alto da cabeça, o caderninho parecia vivo no bolso da frente de minha roupa. Pela primeira vez, em muito tempo, New Orleans ao anoitecer não parecia um lugar tão solitário.

Ao caminhar até em casa, fui contando os anos. Fazia seis anos que Scott e eu havíamos chegado a New Orleans, vindo de Detroit, em busca de um recomeço. A moradia aqui era barata, e Scott tinha acabado de perder o último emprego que ele tinha esperanças de manter na indústria automobilística. Nós dois pensamos que um novo começo, em uma nova cidade, que tentava se reerguer depois de um furacão, seria um bom pano de fundo para um casamento com a mesma expectativa.

8 comentários:

  1. Gostei da capa.
    Simples e bonita, na minha opinião.
    Também senti o gostinhon de "quero mais" ao ler o trecho acima :)
    Curti!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu também gostei da capa, como você disse conseguiu ser simples e bonita.

      Excluir
  2. Acho bem bonita essa capa!
    E gostei bastante do trecho do livro citado, me deu vontade ler ao livro :)
    Adorei, beijos.

    ResponderExcluir
  3. Huuuuuuuuuuuuuuuum, um diário misterioso?
    Que mulherzinha curiosa ein? Vou começar a tomar cuidado com garçonetes a partir de hoje.
    a
    O livro parece ser bem legal, embora não tenho certeza do que esperar do desenrolar do livro.

    ResponderExcluir
  4. A capa é bonita mesmo, mas não me interessei pela sinopse e o trecho não despertou minha curiosidade =/

    ResponderExcluir