quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Resenha Starters.


Título: Starters.
Autor: Lissa Price.
Editora: Novo Conceito.
Numero de páginas: 368.
Ano de Lançamento: 2012.

Sinopse:
Seu mundo mudou para sempre. Callie perdeu os pais quando as guerras de Esporos varreu todas as pessoas entre 20 e 60 anos. Ela e seu irmão mais novo, Tyler, estão se virando, vivendo como desabrigados com seu amigo Michael e lutando contra rebeldes que os matariam por uma bolacha. A única esperança de Callie é Prime Destinations, um lugar perturbador em Berverly Hills que abriga uma misteriosa figura conhecida como o Old Man. Ele aluga adolescentes para alugar seus corpos aos Terminais — idosos que desejam ser jovens novamente. Callie, desesperada pelo dinheiro que os ajudará a sobreviver concorda em ser uma doadora. Mas o neurochip que colocam em Callie está com defeito e ela acorda na vida de sua locadora, morando em uma mansão, dirigindo seus carros e saindo com o neto de um senador. Parece quase um conto de fadas, até Callie descobrir que sua locatária pretende fazer mais do que se divertir — e que os planos de Prime Destinations são tão diabólicos que Callie nunca podia ter imaginado...

Opinião:

Ganhei esse livro de Natal da minha mamys linda Luci e antes de dizer o que achei vou contar sobre o livro a vocês, embora ele tenha sido bem conhecido ano passado quando saiu, só se ouvia fala de Starters.
É uma distopia, nela teve a Guerra dos Esporos e pessoas entre 20 e 60 anos morreram, dessa maneira sobraram crianças vivendo com os avós e as que não tinham avós ou eram levadas para um local do governo, onde são tratadas mal ou fugiam, essas crianças são os Starters, os Enders são as pessoa maiores de 60 anos.
Callie é a protagonista do livro, a mãe dela morreu e levaram o pai dela, logo ela e o irmão Tyler tiveram que fugir, só que o irmão dela é frágil e Callie resolve ver como funciona o aluguel de corpos e deixa o irmão com Michael seu antigo vizinho e agora amigo.
A Prime, empresa que aluga corpos, é de um homem conhecido como O Velho, mas ninguém o vê, eles mantém seu rosto escondido com uma mascara que fica mudando de imagens.
O acordo que Callie faz é o seguinte: três alugueis e com isso ela consegue dinheiro para comprar uma casa e mais. O primeiro e segundo alugueis não tem problemas, mas quando Callie acorda em uma festa sem que o período de aluguel tenha passado e existe uma voz na sua cabeça que parece ser com a da locatária.
Agora Callie está vivendo numa mansão, com vários carros ao seu dispor e saindo com Blake, um garoto por quem ela se apaixona, só tem um problema: Helena a locatária insiste em dizer a ela que Prime é perigosa e ela quer assassinar alguém!
Embora seja uma distopia, a autora não entra muito nos motivos da Guerra do Esporos, como aconteceu realmente, não entra profundamente entende? Ela só te dá os motivos básicos e me pergunto se isso não tem importância no próximo livro.
Starters me encantou, se não bastasse eu ter gostado dele no decorrer o final é para te deixar pilhada e gritando quero mais.


Personagens:
Callie: é muito fácil gostar da Callie, além de todo o amor que tem pelo irmão ela está sempre lutando para conseguir saiu da vida que a Guerra dos Esporos deu a ela.
Blake: vocês vão adorar ele se não no começo no final.
Michael: eu acho ele meio assustador não sei explica o porque, mas acho que ele trama alguma coisa.
Tyler: ele é adorável e bem criança mesmo com tudo e adora Callie.
Helena: eu gosto dela, não é uma personagem que te faz amar, mas tem uma história legal sim.
Velho: uau é só o que eu digo!

Escrita: Price escreve de maneira bem clara e como uma adolescente pensaria e nem por isso sendo fútil.

Capa: a capa tem tudo haver com a história, temos isso nela e como diz a mamys ela é assustadora, podemos usá-la para assustar quem quiser interromper nossa leitura.

Enredo: eu gostei do enredo, a história vai tomando forma aos poucos e acaba sendo magnifica!





Abaixo segue um texto do ponto de vista do Michael, chamado "Retrato de uma Starters", é meio grandinho, mas vale a pena ser lido. Fala como surgiu a capa do livro basicamente, a editora foi fiel a isso.

Sento-me no chão e pego meu lápis de carvão, tentando não acordar Callie. Ela está deitada sobre o meu saco de dormir, com os olhos fechados e um leve sorriso nos lábios. Provavelmente está sonhando com a vida antes da guerra. Ela não sorri muito desde que a guerra terminou. 

Seu irmão menor, Tyler, está dormindo do outro lado da sala, atrás das escrivaninhas que empilhamos. Consigo ouvir os roncos estrangulados, um sinal de que ele está congestionado outra vez. Talvez seja por isso que Callie está deitada em cima do meu saco de dormir — para conseguir tirar uma soneca tranquila durante a tarde.

Eu cruzo as pernas e apoio o bloco de desenhos nelas. Meu precioso bloco de desenhos. Cada uma das páginas está com as bordas maltratadas e manchadas, mas o papel ainda serve para desenhar.

A cabeça de Callie se inclina um pouco, de frente para mim. Hesito, segurando o lápis no ar, como se minha mão estivesse  congelada. Lembro-me de quando ela tinha 13 anos, quando a vi pela primeira vez no bairro em que morávamos. Em três anos, ela se transformou. Deixou de ser uma garota desajeitada para ser... Bem, não tão desajeitada. Afasto a lembrança da criança que ela era para fazer justiça à garota que está à minha frente. Olho através da sujeira que ela tem no rosto e o cabelo desgrenhado que precisa muito de um xampu — hoje em dia, quem não precisa? — para conseguir chegar à sua essência. Palavras não são, e nunca serão, suficientes para descrevê-la. Farei o melhor que puder para capturar essa essência com linhas e sombreados. 

Deixo o lápis tocar o papel. Desenho a forma oval que será a cabeça. Uma elipse, o início. Traço o contorno várias vezes. Meu lápis corre como um carro em um autódromo, fazendo círculos suaves e cinzentos, tentando capturar as curvas do seu rosto. Curvas, que piada. Ela está tão magra quanto eu, tão magra quanto qualquer Starter. É impossível passar um ano nas ruas sem dinheiro e sem parentes, e ainda assim ganhar peso.

Odeio ser um Starter. Odeio ter 16 anos. Odeio sentir fome. Queria que tivéssemos permissão para trabalhar.

Volto a me concentrar no desenho. O nariz de Callie é delicado, mas também é mais do que isso. Passa a impressão de determinação. Continuo desenhando para retratar os lábios, tentando encontrar uma maneira de interpretá-los sem deixá-los grossos demais ou finos demais. Alguns milímetros fazem a diferença entre lábios severos e lábios teimosos, e nenhuma dessas palavras serve para descrever Callie.

Neste ponto, o rosto dela ainda é só um contorno. Começo a preenchê-lo. Em primeiro lugar, as sobrancelhas. Um toque mais leve é ideal aqui. Em seguida, duas formas ovais que marcam o lugar para os olhos. Depois, os cabelos compridos, que se derramam sobre o saco de dormir... Faço uma onda com o lápis. Não. Está errado. Apago os traços.

Por que isso não funcionou?

Paro de desenhar e rolo o lápis entre meu polegar e o indicador. Finalmente me dou conta: Não quero retratá-la deitada no chão, com os olhos fechados. É como se ela estivesse... Balanço a cabeça para afastar esses pensamentos horríveis.

Sopro a mão direita para esquentá-la e dou uma olhada ao redor, observando este escritório que está caindo aos pedaços. O lugar que chamamos de casa. Com piso de concreto e paredes nuas, não há qualquer calor aqui. Fecho os olhos por um segundo e desejo que uma lareira e uma xícara de chocolate quente apareçam, como num passe de mágica.

Nada disso aparece. Eu volto a desenhar.

Desenho os olhos de Callie abertos, puxando pela memória. O retrato está tomando forma agora. Imagino como seus ombros seriam se estivessem nus e os desenho. Ombros desnudos são mais clássicos para um retrato, digo a mim mesmo. Mais resistente ao tempo do que o blusão rasgado e puído que ela usa. Estou a ponto de voltar a desenhar os cabelos quando ela se mexe. Escondo o bloco atrás das costas. Ela entreabre os olhos.

— Michael? O que está fazendo? — ela pergunta, se espreguiçando.

— Só olhando você dormir. — Eu me esforço para manter um tom casual.     

— Por quê? — Ela se senta sobre o saco de dormir e me olha, um pouco confusa e encantadora.

Olho fixamente para os olhos dela e aplaudo a mim mesmo porque consegui desenhar o formato perfeitamente. O desenho continua atrás de mim, no chão, e eu espero que ela não perceba.

— Porque você fica muito tranquila quando dorme — eu digo. — Faz com que eu me lembre de tempos melhores.

— Desculpe por ter roubado seu espaço. — Ela começa a se levantar. — Tyler estava fazendo muito barulho.

— Venha sempre que quiser.

Eu me levanto e pego o bloco de desenhos antes que ela consiga ver o retrato. Viro a folha que serve de capa para fechá-lo com uma das mãos, às minhas costas.

Ela estica o pescoço.

— Está desenhando?

— Só treinando.

— Como está o Tyler?

Olho na direção da pilha de escrivaninhas que serve de abrigo do outro lado do quarto, mesmo que não seja capaz de vê-lo.

— Parece que ele está um pouco congestionado.

Ela se aproxima rapidamente para examiná-lo. Abro uma gaveta de uma das escrivaninhas empilhadas que formam o meu forte e enfio meu bloco ali dentro. Em seguida, observo a coleção dos meus desenhos colados à parede com fita adesiva. Starters com várias camadas de roupas rasgadas cobrindo seus corpos franzinos, garrafas d’água presas aos ombros por correias e lanternas de pulso afiveladas. Instituições, incluindo a pior de todas, a número 37, com suas paredes grossas e portões de metal. Enders de cabelos brancos, a maioria com rostos alterados cirurgicamente à perfeição, alguns com rugas, muitos com rosto grotesco, gritando e nos ameaçando com suas bengalas. Starters brigando por uma maçã. Inspetores Enders usando um Zip Taser contra um Starter indefeso. O mundo doente onde vivemos.      Callie volta e me tira do meu pesadelo mental.

— Ele está quieto agora — diz ela, inconscientemente tocando uma mecha do cabelo. — Escute, você pode cuidar dele amanhã?

— Para onde você vai? — eu pergunto.

— Preciso fazer uma coisa. É pessoal.

Eu confirmo com um movimento de cabeça. A vida de Callie é ainda mais difícil por causa de Tyler. As coisas já são bem ruins, mas são piores quando alguém tem um irmão de 7 anos que está sempre doente.

— Coisas de menina?

Ela dá de ombros.

Chega de provocar. É óbvio que ela não vai me contar para onde vai.

— Claro. Eu cuido dele para você.            

Naquela mesma noite, quando saio para encher as garrafas d'água, paro em outro lugar antes de chegar ao terceiro andar. Encontro Florina, uma camarada, e pergunto a ela se pode cuidar de Tyler amanhã.      

— Para onde você vai? — Ela inclina a cabeça e sua franja escura lhe cai por cima dos olhos.      

— Vou precisar sair.

— Com Callie?      

— Ela tem outras coisas para fazer — eu digo.      

Os lábios de Florina se curvam para cima com o mais discreto dos sorrisos.      

— Tudo bem, Michael. Mas você vai ficar me devendo.      

Bato com a palma da minha mão na dela, que está levantada.      

— Obrigado, Florina. Você é a melhor.      

— É mesmo? E como você pode saber? — ela pergunta naquele tom de flerte que sempre me deixa nervoso.            

Na manhã seguinte, Callie sai do prédio. Coloco a mochila sobre os ombros e vou até a janela que fica no segundo andar, no mesmo corredor da sala onde moramos. Olho para baixo e percebo quando ela para e examina a rua, buscando por renegados. É isso aí, garota. Ela sempre toma cuidado.      

Em seguida, ela corre para atravessar.

Eu corro para as escadas e desço os degraus, dois de cada vez. Atravesso o saguão correndo em direção à porta da frente.      

Sinto uma pontada de culpa. Prometi a Callie que cuidaria de Tyler. Mas, quando saímos juntos, ela não se importa em deixá-lo com algum camarada de confiança. Ela simplesmente não teve a oportunidade de conhecer Florina ainda.      

Callie está a um quarteirão de distância. Examino as ruas em todas as direções e não vejo ninguém. Não há muitas pessoas andando por aquele parque industrial abandonado. E, com certeza, isso não significa que não haja ninguém escondido. Coloco a alça da mochila sobre o outro ombro. Está pesada, carregada com várias armas improvisadas. Eu sei que Callie sabe se defender. Ela é forte e inteligente. Mas dois são sempre melhores do que um.      

Fico de olho nela, caminhando sem fazer barulho, pronto para me enfiar em alguma viela caso Callie resolva olhar para trás. Ela não olha.            

Eu a sigo por uma hora enquanto ela vai na direção norte. Passamos por bairros cheios de casas abandonadas e com as janelas e portas cobertas por tapumes. Sempre que Callie chega a uma casa coberta por uma lona vermelha, com o cheiro característico de produtos químicos, ela cobre a boca com a manga do seu blusão e atravessa a rua.      

Ao longo do caminho, nós passamos por Enders com seus típicos cabelos brancos ou prateados, o distintivo de honra que denota sua longevidade. As empresas farmacêuticas não conseguiram produzir vacinas em quantidade suficiente para salvar Mediais como meus pais, mas eles certamente têm os meios para fazer com que os Enders vivam até os 200 anos de idade, pelo menos.      

Eu me concentro em Callie, com os cabelos que lhe chegam até o meio das costas, a garrafa d’água balançando na ponta da correia jogada por cima do ombro.      

Alguns camaradas que se aproximam na direção oposta param para conversar com ela. Eu me escondo atrás da varanda de uma casa vazia. Quando espio, vejo que eles já se afastaram e estão voltando pelo caminho de onde vieram. É estranho. Callie não continua a caminhar. Ela simplesmente fica na calçada, sozinha, como se estivesse esperando.

Em seguida, vejo um rapaz vindo na direção dela. Parece ter a minha idade, mas está vestido como se fosse mais velho.      

Quem é ele? Ela o conhece? Roupas caras — uma jaqueta esportiva e boas calças. Sapatos de couro que serão inúteis se ele tiver de correr. Além de tudo, ele está limpo. Sei que existem garotos ricos, mas não estou acostumado a vê-los na rua, sozinhos, sem que seus avós estejam por perto. De vez em quando eles passam correndo em seus carros-esporte, cruzando as ruas do nosso bairro em alta velocidade. O lugar onde estamos agora, mais ao norte, é muito melhor do que o parque industrial. Talvez isso explique a presença do Starter rico.      

Callie e o rapaz estão na calçada, em frente a uma pequena casa com roseiras. Uma Ender os observa, sentada em sua cadeira de vime na varanda. Callie concorda com movimentos de cabeça e escuta o que o garoto rico diz, como se suas palavras valessem ouro.      

O rosto dele parece familiar. Será que já o desenhei? Isso acontece com frequência; eu desenho um estranho e, mais tarde, sinto como se o conhecesse, de algum modo. É isso, eu já desenhei esse cara. Ele costumava morar no nosso prédio. No primeiro andar. Isso aconteceu há vários meses.

Ele parece estar melhor agora. Onde conseguiu aquelas roupas? Provavelmente arranjou uma namorada rica, ou algum parente distante conseguiu encontrá-lo. Talvez essa seja a razão pela qual ele conseguiu sair do prédio. Eu realmente gostaria que isso acontecesse comigo. Alguma tia-avó distante da qual nunca ouvi falar, com uma casa grande e aconchegante e uma cozinha cheia de batatas fritas, doces, potes de manteiga de amendoim e geleias. Um freezer abarrotado de pizzas.      

O rapaz olha ao redor. Volto a me esconder atrás da varanda. Não importa que ele me veja, mas não quero que Callie perceba que eu estou ali. Acho que ela não me viu.      

Espio pelo canto da casa e vejo que eles estão indo embora. Juntos.      

Atravesso a rua para ver melhor o rosto do rapaz. Não consigo me lembrar do seu nome, mas lembro que ele tinha uma cicatriz longa, logo abaixo de um dos olhos. Não consigo vê-la agora. Não estou muito perto, mas, a essa distância, eu deveria conseguir vê-la. Talvez a tia-avó rica pagou para que ele fizesse uma cirurgia a laser. Talvez pensasse que poderia apagar o passado que ele teve nas ruas.

Observo os dois de costas. Ele coloca um braço ao redor dos ombros de Callie e eu sinto meu rosto ficar quente.      

Ela não faz qualquer menção de se afastar. Simplesmente continua caminhando, como se aquilo não fosse nada. Ou como se já conhecesse o rapaz.      

Será que não percebem o quanto isso é estranho? Um garoto rico e bem-vestido junto com uma Starter esfarrapada?      

Os inspetores passam em um carro-patrulha, olhando fixamente para mim e também encarando Callie e o garoto antes de se afastarem.      

Para onde ela está indo? É algum tipo de encontro? Será essa a razão pela qual ela não me contou para onde iria?      

Ela pode sair sempre que quiser. Não estamos namorando. Como é possível sair com alguém quando você não tem dinheiro, não tem um carro, não tem uma casa? Talvez, se eu tivesse essas coisas, poderia sair com Callie. Acho que era assim que as coisas aconteciam antes da guerra. Eu tinha só 13 anos naquela época. E não sabia de nada.      

Callie e o rapaz param em frente a uma cafeteria. Ele entra.

Ela quase consegue me ver. O que eu diria se isso acontecesse? Que ela esqueceu alguma coisa, e que eu a segui para entregar? Talvez pudesse dizer que ela precisa voltar para perto de Tyler, que ele ficou irritado por ela passar o dia fora. Exceto pelo fato de que ele não se incomodou com a saída de Callie, e ela descobriria assim que voltasse. Acho que eu simplesmente preciso ter certeza de que ela não vai me ver.      

O rapaz sai da cafeteria com dois copos de café gelado, cobertos por uma montanha de chantilly. Minha boca parece estar cheia de algodão. Eles puxam cadeiras pesadas de metal, arrastando-as sobre o piso de concreto. Eu me agacho rapidamente em frente à entrada de um prédio.      

A entrada leva para uma pequena lavanderia, ensanduichada entre duas lojas lacradas com tapumes. Mesmo aqui, em Beverly Hills, a situação não é muito fácil para as empresas. Mas alguém tem de lavar as roupas de todos os Enders trabalhadores.      

Uma daquelas Enders, uma mulher vestindo um terno vermelho, vem até onde estou, trazendo uma carga de roupas sujas nos braços. Ela me vê e fica paralisada. Está com medo. Por minha causa. Sorrioe me encosto na parede, estendendo o braço e mostrando que ela pode passar sem problemas.      

Ela treme um pouco enquanto se contorce para passar por mim e entra na lavanderia. O perfume forte que ela usa enche o ar à minha volta. Cheiro de flores de velório.      

Dou mais uma olhada em Callie. Ela está sorrindo, devorando cada palavra que sai da boca do outro rapaz. Ela toma um gole de café e ele estende o braço, limpando um pouco do chantilly que sujou os lábios dela.      

Meu estômago se revira. Respiro fundo e pego a minha garrafa d’água. Estou com sede, mas a minha água está tão quente que nem parece que estou bebendo alguma coisa. Nada que seja doce e gelado como as bebidas elegantes que eles estão tomando.      

Uma coisa dura espeta o meu braço. Eu me viro em direção à porta e quase dou um salto com o que vejo. É o proprietário, um daqueles Enders teimosos que insistem em não operar o rosto. Parece usar uma máscara assustadora de Halloween, cheia de rugas. Está empunhando uma vassoura.

— Vá embora — diz ele. — Você está espantando os meus clientes.      

A Ender de terno vermelho, a cliente da lavanderia, está encolhida atrás dele, segurando suas roupas recém-lavadas com tanta força que elas estão ficando amarrotadas.      

— Não estou fazendo nada de errado — eu digo.      

— Saia daqui. — Ele me espeta com o cabo da vassoura, como se eu fosse algum animal raivoso. — Ou então, vou chamar os inspetores.      

Espio pelo canto e vejo que Callie foi embora. Saio para a rua, tentando encontrá-la.      

— Isso mesmo, vá embora — o Ender grita para mim. — E não volte!      

Um carro buzina e quase me atropela antes que eu salte para longe. Atravesso a rua. Callie e o rapaz estão no fim do quarteirão seguinte, caminhando.      

Acelero o passo, mas não me atrevo a correr. Os Enders vão chamar os inspetores se virem algum Starter correndo.

Especialmente aqui em Beverly Hills, onde os Enders são super-ricos. Beverly Hills não ficou imune à Guerra dos Esporos que exterminou uma geração inteira, mas ainda é o lugar onde se pode encontrar os aparelhos eletrônicos mais modernos e roupas de grife.      

Continuo com os olhos em Callie e no rapaz que está com ela. Eles entram em uma das ruas mais estreitas que levam ao coração de Beverly Hills. Eu me lembro dessa rua. Minha mãe me trouxe aqui quando eu tinha 12 anos, quando uma tia veio nos visitar. Parecia que cada vitrine estava cheia de diamantes e ouro.      

Mas Callie e o rapaz não param para olhar as vitrines. Eles estão andando mais rapidamente agora.      

Para onde ela está indo?      

Fico a meio quarteirão de distância e observo quando eles param em frente a um prédio com janelas espelhadas. A julgar pela maneira que ele gesticula para Callie, o rapaz parece estar explicando alguma coisa sobre o lugar. Uma garota sai do prédio.      

Uma garota linda.      

Ela tem cabelos longos e negros, e parece ter a minha idade. Callie e o rapaz mal olham para a garota quando ela passa e atravessaa rua. Ela vem andando na minha direção. Quando chega mais perto, eu a reconheço. Morava no nosso quarteirão, em um prédio de escritórios próximo, até dois ou três meses atrás. Eu já a desenhei também.      

— Chynna? — eu chamo.      

— Sim? — ela diz, antes de me ver.      

Eu me aproximo. Ela abaixa um pouco os óculos escuros.      

— Oi, Chynna — eu digo, com um aceno. — Sou eu, Michael.      

— Não. Desculpe-me. — Ela volta a cobrir os olhos com os óculos.     

 — Eu moro no prédio que fica no seu quarteirão. Provavelmente você não está me reconhecendo, já que não estou com o nariz enfiado no meu bloco de desenhos.      

— Desculpe. — Ela volta a me encarar, sem qualquer expressão. — Você está me confundindo com outra pessoa.      

É o rosto dela, a voz dela. Mas ela está vestida de maneira diferente, usando um terno elegante com uma saia curta, sapatos desalto e carregando uma bolsa enorme, cheia de logotipos. E sua pele, que tinha várias falhas e ressecamentos, agora está perfeita. Ela se vira e anda rapidamente, entrando em uma rua lateral. Eu a sigo.      

— Chynna, espere.      

Ela continua andando.      

— Quero perguntar sobre aquele lugar.      

Estendo a mão e toco seu braço.      

Ela se desvencilha com um movimento brusco.      

— Tire essas mãos imundas de cima de mim!      

O dono de uma loja, um Ender que está trazendo o lixo para fora, se intromete.      

— Ele está lhe incomodando?      

— Sim. Mantenha esse Starter longe de mim.      

Ela praticamente cospe a palavra “Starter”, como se fosse um veneno. É muito estranho ela me chamar assim. Ela também é uma Starter.

— Chynna, o que está acontecendo com você? — eu pergunto.      

O dono da loja se aproxima e me agarra. Tento me apoiar em Chynna, para recuperar o equilíbrio. Ela balança a bolsa, tentando atingir o meu queixo, e eu sinto o couro raspar levemente na minha pele.      

O dono da loja me puxa com força e caio no chão, de costas. Ele sobe em mim, tentando me conter, como se estivéssemos em uma luta de vale-tudo.      

— Me solte! — eu grito.      

Minha mochila rola pelo chão e o bloco de desenho cai, deslizando por cima de uma poça d’água.      

— Não... — Meu bloco.      

Olho para cima e vejo Chynna, ou quem quer que seja aquela garota, correndo em direção ao fim da rua. Ela entra pela porta traseira de um carro branco elegante, e me olha através do vidro escuro como se eu fosse um monte de sujeira. Como se, até dois meses atrás, ela também não estivesse onde estou agora. O motorista a leva para outro lugar.

O dono da loja finalmente me solta, agora que ela foi embora.      

Pego meu bloco de desenhos e enxugo a água suja com a manga do meu blusão. Eu me levanto, sentindo um pouco de dor, e saio daquela rua. Viro na direção do prédio onde Callie estava.      

Ela sumiu. E o rapaz que estava com ela também.      

Para onde foram? Será que entraram no prédio?      

Começo a andar em direção à porta para encontrá-los, mas uma sirene começa a tocar a alguns quarteirões de distância. O dono da loja me encara com um sorriso torto.      

— Você ligou para os inspetores — eu digo.      

— Garotos como você deviam ficar em alguma instituição.      

Típica conversa de Ender. Antes que eu perceba, as minhas mãos jovens e fortes estão ao redor da garganta frágil do Ender.      

— Não é minha culpa! Foram vocês, Enders, que deixaram o mundo assim. — Aperto até que o rosto dele fique vermelho. — O que é aquele prédio? — Eu o forço a virar a cabeça em direção ao lugar.

Ele consegue resmungar uma resposta.      

— Prime... Destinations.      

— Que lugar é esse?      

Ele abre a boca, mas não emite qualquer som. Seus lábios ficam brancos.      

— O que acontece lá? — eu grito.      

Sinto os ossos dele debaixo da pele fina e fria, e posso jurar que consigo ouvi-los se quebrando.      

O que estou fazendo?      

Eu não sou isso. Tornei-me um animal raivoso.      

Eu o solto. Ele cambaleia e cai no chão, com o rosto para baixo. Estou ofegante, e olho para aquele corpo frágil enquanto a sirene se aproxima. Será que eu o machuquei? Muito?      

— Ei. — Encosto meu pé na sua perna.      

Ele está imóvel. O suor começa a se formar na minha testa. O que foi que eu fiz? Ele começa a se mover lentamente. Tomo fôlego. Ele consegue se apoiar sobre os joelhos e as mãos, e olha para mim por entre os cabelos que lhe caíram sobre o rosto.      

— Por que você não vai até lá para ver? — ele pergunta, com a voz embargada.      

Ele indica o prédio com um movimento de cabeça, Prime Destinations. Parece um desafio, mas tudo em que consigo pensar é entrar à força naquele prédio e encontrar Callie, impedi-la de cometer o maior erro da sua vida. Que tipo de lugar transforma completamente Starters em manequins lindos e estúpidos, sem qualquer memória? Mas a sirene toca quando o carro do inspetor vira a esquina, com o capô prateado vindo na minha direção como um tubarão faminto. O dono da loja se apoia sobre os calcanhares e aponta para mim, o agressor, o animal, o Starter.      

Agarro meu bloco e minha mochila, e saio em disparada.            

Horas depois, de volta à sala onde moro, com os pés inchados e os músculos ardendo, eu me sento no meu canto. Tyler está dormindo dentro de seu forte. Callie ainda não voltou. Afasto o pensamento de que ela pode nunca mais voltar.

Olho fixamente para o retrato dela. Com as novas manchas de água, as bordas do bloco estão mais sujas do que nunca, mas o desenho conseguiu permanecer limpo.      

Uso meu lápis de carvão para terminar o cabelo. Com movimentos rápidos, desenho um dos lados da maneira que sempre os vejo, embaraçados e um pouco desgrenhados. Em seguida, respiro fundo. Desenho o outro lado mais lentamente, metodicamente, cuidadosamente. O outro lado fica muito mais elegante. Antes e depois? Talvez.      

Pego meu lápis marrom e preencho uma das íris. Começo a colorir a outra, mas paro. Apago o tom castanho do segundo olho. Busco outro lápis, com a mão passando pelas cores até encontrar um tom de azul. Uso esse lápis para colorir o segundo olho com uma cor que nunca vejo quando olho para Callie. Por que fiz isso? Não tenho a menor ideia.      

Mas, quando termino e olho para o desenho, parece que fiz a coisa certa. O resultado é surpreendente, espantoso, e até mesmo um pouco assustador. É arte, digo a mim mesmo, e posso fazer o que eu quiser. É a minha representação artística, mais fiel do que qualquer retrato fotorrealista. Nesse momento percebo por que a desenhei assim. Por mais que tenhamos nos tornado próximos, vivendo juntos durante os últimos meses, eu realmente não a conheço. Em nossas vidas estúpidas e desesperadas, todas as pessoas, assim como todas as coisas, são imprevisíveis.      

Até mesmo eu.      

Escuto o ronco de Tyler. Ele acredita que ela vai voltar para nós.      

Eu espero que volte.





18 comentários:

  1. Eu adoro Starters já li e me apaixonei pela estória ele tem um lugar especial na minha estante hahaha , realmente o final é de deixar qualquer um louco estou doido para ler Enders !

    euvivolendo.blogspot.com ( comenta lá :D )

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    1. Sim Gabriel! Estou totalmente doida para ler Enders!

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    2. Nossa Enders é a continuação? Tem data prevista?

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    3. Eu não sei se tem data prevista, mas, sim, Enders é a continuação. Com um final daqueles, tinha que ter, né... ;)

      Eu quero saber qual é a daquele Velho hehe

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  2. Eu quero esse livro e sempre esqueço de comprar. Ameeeeei sua resenha.

    clicandolivros.blogspot.com

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  3. Eu e minha irmã estamos ansiosas para ler esse livro.
    Essa distopia é bem interessante. Adorei a resenha e a capa é bem bonita.
    Bjs

    Joyce
    entrepaginasesonhos.blogspot.com.br

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    1. A capa é assustadoramente bonita! SAUSHUAHSUA.

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    2. Cath, eu concordo com você: a capa é linda e eu gosto porque ela está em sintonia total com a estória do livro.

      Agora, me explica, o que é uma distopia, please?! :)

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    3. Concordo com você Cath, a capa chama muito a atenção!!!!!!

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    4. Nossa, a capa é super linda e sinistra!

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  4. Já li Starters e não sei nem o que dizer. Só posso falar uma coisa, o livro é MARAVILHOSO, li ele em poucos dias, para ser exata dois dias, me surpreendi com o final e espero que o livro tenha uma continuação!

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    1. Nossa, eu não sabia! Adorei! Já tem data prevista para o lançamento?

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  5. Gostei da resenha.
    Também li Starters e gostei, não ameeeei, mas gostei e também estou curiosa para ler Enders porque algumas descobertas no final me deixaram intrigadas: como? Por quê?

    :)

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    1. Nossa,eu não acreditei no final! Foi tão intrigante!

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  6. ainda nao tive oportunidade de ler esse livro, mas estou bem curiosa primeiramente que a capa é linda! E segundo que o enredo me chamou bastante atenção.

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