quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Trechos De Um Livro... - Feita de Fumaça e Osso.




Akiva estava de pé na beirada de um terraço em Riad, espreitando uma porta na travessa lá embaixo. Era tão indefinível quanto as outras, mas ele sabia bem o que era. Dava para sentir sua acre aura de magia como uma dor por trás dos olhos.
Era um dos portais do demônio para o mundo humano.
Estendendo as enormes asas que só eram visíveis em sua sombra, ele planou até lá, aterrissando numa chuva de fagulhas. Um varredor de rua o viu e caiu de joelhos, mas Akiva o ignorou e encarou a porta, as mãos se fechando em punhos. Não havia nada que ele quisesse tanto quanto sacar a espada e tomar aquele lugar de assalto, acabar com as coisas na loja de Brimstone, de forma rápida e violenta, mas a magia dos portais era inteligente, e ele sabia que não devia nem tentar, então fez o que tinha ido ali fazer.
Estendeu a mão e apoiou-a aberta na porta. Houve um brilho suave e um cheiro de queimado, e, quando retirou a mão, sua marca estava gravada na madeira.
Era só isso, por enquanto.
Ele se virou e foi embora, as pessoas se encolhendo contra as paredes para deixá-lo passar.
Com certeza, não podiam vê-lo como realmente era. Suas asas de fogo eram invisíveis graças à magia, e ele deveria ter conseguido se passar por humano, mas não estava tendo muito sucesso. O que as pessoas viam era um homem alto, jovem, bonito — verdadeira e arrebatadoramente bonito, de uma forma que poucas vezes se vê na vida real —, que se movia entre eles com uma graça predatória, parecendo não prestar mais atenção a eles do que se fossem estátuas num jardim de deuses. Trazia um par de espadas embainhadas cruzadas nas costas, e suas mangas estavam arregaçadas, revelando antebraços bronzeados e musculosos. Suas mãos eram uma curiosidade, marcadas tanto pelo branco das cicatrizes quanto pelo preto da tinta das tatuagens — linhas pretas simples que se repetiam, riscadas na parte de cima de seus dedos.
Seu cabelo escuro estava cortado rente à cabeça, e descia em V na parte da frente formando um bico de viúva. Sua pele dourada tinha tons de bronze mais escuro em algumas partes de seu rosto — maçãs do rosto, testa, ponta do nariz —, como se ele vivesse se banhando em uma rica luz cor de mel.
Apesar de bonito, ele era ameaçador. Era difícil imaginá-lo sorrindo — o que, de fato, Akiva não fazia havia anos, e não conseguia se imaginar fazendo de novo.
Mas tudo isso era apenas uma impressão passageira. As pessoas se fixavam mesmo, quando paravam para vê-lo passar, em seus olhos.
Eram cor de âmbar como os de um tigre e, como os de um tigre, eram delineados por preto — tanto pelos cílios espessos quanto pelo uso do kohl, e que destacavam o dourado de suas íris como se fossem raios de luz. Eles eram puros e luminosos, hipnotizantes e extremamente bonitos, mas algo estava errado, faltando. Humanidade, talvez, aquela qualidade de benevolência a partir da qual os humanos, sem ironia, nomearam a própria espécie. Quando, ao dobrar uma esquina, uma velha senhora cruzou com Akiva, a força do olhar dele caiu sobre ela e a fez arquejar.
Havia fogo vivo nos seus olhos. Ela tinha certeza de que ele atearia fogo nela.
Ela arquejou e tropeçou, e ele estendeu a mão para ampará-la. A velha senhora sentiu o calor e, quando ele saiu, suas asas invisíveis roçaram nela. Delas choveram faíscas, e a senhora ficou para trás com a boca aberta, em busca de ar, paralisada de pânico, enquanto ele se afastava. Viu claramente a sombra de suas asas se abrirem, e então, com uma rajada de ar quente que soprou seu lenço de cabeça para longe, ele se foi.
Em instantes, Akiva já estava lá em cima, no éter, mal se dando conta do choque dos cristais de gelo no ar rarefeito. Deixou o encanto se desfazer, e suas asas eram como placas de fogo varrendo o escuro dos céus. Ele se movia velozmente, seguindo em direção a outra cidade humana para encontrar outro portal acre de magia do diabo, e outra depois daquela, até que todas tivessem a marca de mão negra.
Nos lugares mais longínquos do mundo, Hazael e Liraz faziam o mesmo. Quando todas as portas estivessem marcadas, seria o início do fim.
E começaria com fogo.

7 comentários:

  1. Adorei o trecho!!!
    Sou louco para ler esse livro.
    Só queria ter certeza que é bom mesmo.

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    1. Depois que tu ler, me avisa se gostou.
      Atualmente só posso gastar em livros que eu tenha certeza que vale a pena.

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  2. Adoro a capa desse livro to louca para poder ler ele!

    xoxo

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  3. Tenho vontade de ler o livro. A capa é linda!

    Joyce
    entrepaginasesonhos.blogspot.com.br

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  4. Estou a tempos querendo ler esse livro e o trecho só me deixou ainda mais com vontade kkk parece ser muito bem escrito!

    Bjs
    @Tibiux

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  5. Primeiro que eu amo a capa deste livro, segundo... que trecho é esse? :O fiquei muito curiosa p saber o resto hahha

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  6. linda essa capa , sempre é o que me chama mais atenção

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